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Para um dia de chuva fina
Ajudem-me a procurar
nos pequenos compartimentos,
Dentro dos bolsos, nas caixas de sapato
e nas cestas de vime detrás da porta.
Entre os lençóis dobrados todos,
os bordados, os pontos-de-cruz.
No meio dos vestidos
ou perto das tiaras de cabelo
ou em canto algum mais.
Encontrar ainda
Marcas de dedos - digitais nos vidros das arcadas
Fios de blusas desfiadas
Murmúrios apreendidos nos ocos da panelas,
ou um cílio que tenha caído e o vento não arrebatou.
Procuro nos espaços que desconheço
qualquer traço que a Ela me remeta
e ao suporte donde as flâmulas se penduram.
Eia de tudo despencante,
Eia das lufadas entrecortadas no soluço, eia!
É o tempo no alvitre indeciso
É a meada que unta e se esfalfa. Vou ajuntar enquanto lá fora
os céus cochicham suspiros de finas águas caindo. É a chuva da meia-estação.
Minha casa recomposta entre massas negras ululantes.
Cócoras, é preciso vasculhar até no úmido dos baixos armários.
Terrinas de sopa: nenhuma intacta.
Quem ordenará o rebanho, quem tangerá as cabras
para dentro do cercado?
Sobe, sobe no barranco de tua cova, minha mãe silenciosa
Que daqui lambo os dedos enquanto a língua à garganta se alucina de pavor. Sobe.
Escrevo cartas,
Afago a grinalda das lontras.
Ouço assovios e miados. Quem urra além daqui?
Procuro.
Foi aceso o candeeiro para iluminar o escuro em mim.
O poste telegráfico caiu,
Da garoa se fez vendaval.
Chove dentro das minhas gavetas, minhas gavetas de guardar afetos.
Agora elas estão alagadas, enxovalhadas, aviltadas, mudas...
E não me resta mais onde procurar.
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