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Partida
Rio vazante
Rio da boca sem misericórdia,
Esta foi a pobre amizade
que depus em tua orla
Mas recusaste regurgitando dos intestinos,
Onde mais nada quiseste,
Onde mais nada deixaste.
Pega desta mão e
orna com um cravo tua lapela.
Ah,
noivo hediondo e arrependido,
Este foi o casório oferecido - nenhum dote.
Festim da graça rejeitada. Ai da desgraça como recompensa.
Mas ovóides de máculas e de sorrisos,
fecundar, quem dera!
E assim, tordo-menino, vestido em túnica vermelha
Ou será tua única vestimenta
Aquela frágil lealdade
guarnecida no rubor de pouco caso, tantas blasfêmias? Já que tanto
onde riso de escárnio suplantou o intento?
Seduziu, vilipendiou, assassinou.
Simplória, a esperança ruiu.
Ingênua, a cumplicidade se depauperou.
Solfejos, adágios
Mas ainda do firmamento, nebulosas.
Só que a isto tolamente enjeitaste.
Febril, esparso, intuído para milênios.
E desmantelada, a máscara descerrou face crua.
Saberás, algum dia, dos perdidos sofrimentos?
Desventuras escondidas entre acasos,
Réquiem. Réquiem no sobejo dos passos.
Paira no ar o contorno de uma glória ofuscada;
E dos olhos, apenas centopéias alquebradas
que nada encontram além dos telhados,
Além da barca que ruma para o vazio. Beije-me agora
antes que eu mesmo, de novo, caia.
Beije-me antes que o desenlace se cumpra
E se escambe e nada mais reste.
Beije-me apesar da hora e da partida.
Venha ao anoitecer das almas
partilhar do silêncio que aquece.
Venha recolher nossos braços
e tranquilizar nossas mandíbulas.
Venha que depois seguiremos adiante
volitando nas bordas das ondas, no alto dos frêmitos.
Venha, pois tão logo estaremos esquecidos.
Rio vazante que não cessa de partir, estamos prontos. Leve-nos embora agora.
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