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Prece
Ave-Maria
Da noite escumosa
E dos lamentos
Como tridos de joelho
Rezando, será?
A igreja tão grande
E severos são os tijolos
Que não abraçam
E nem socorrem,
Ficam no alto
Tão tristes, descobertos
sustentando o telhado
e o vento, também.
Ave-Maria
Que não responde ao chamado
Permanece no templo
Coberta de pó
Com os olhos entreabertos, enfastiados
A bruma reluz nos seus pés,
(ajeita-se entre os meus)
manchados de penitências
e de cânticos sibilantes,
colecionando súplicas doídas,
exortando caminhos escalavrados:
O mutismo da piedade
na salva-guarda da eterna consternação.
Ave-Maria
de todas as barbáries!
O ventre que pariu
desapareceu.
E no lugar o que vejo
só as vísceras de um galpão vazio
onde se embala a saudade
e habitam anjos enclausurados
levitando sem poder sair.
Olham pelas alças das altas grades
com suas asas roçando o chão.
Ave-Maria
dos braços recolhidos
e do altar ornado,
Avencas de feltro te embelezam,
Fachos de vela te sapecam,
mas nada recorda teu vigor.
O arco-iris de um vitral raseia tua roupa,
Tua casaca de pedra branca rabiscada
Teu vestido de mármore
Tua coroa de luz artificial.
Ave-Maria, Santa-Mãe: esqueci o pedido e não tenho mais preces.
Fica então com meu gemido. Meu gemido que caiu na greta negra
e se espatifou perto do chão.
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